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Turbulência


Andar de avião, para muitos, é um martírio. Eu, há pouco tempo, achei uma forma prazerosa de viajar, ou seja, me energizo positivamente e entrego pra Deus!
Porém, pra mim, as coisas começam a ficar confusas, quando energias negativas tomam conta dos colegas de viagem. O último vôo da Vasp que vinha do Sul estava lotado e teve problemas de manutenção, razão pela qual, já dentro da sala de embarque, todos ouvimos a voz da encarregada falando do atraso de meia hora para a partida. Neste exato momento, o cavalheiro que estava sentado no meu lado se levantou, deixou a bagagem de mão na poltrona, foi olhar pela parede de vidro que separava a pista da sala e voltou com a novidade: â?? Está saindo fumaça da turbina, que não quer girar. O que você acha?
 Bem, eu acho que logo isto estará sanado.
 Duvido, disse ele.
 Na verdade, é melhor que aconteça isso aqui embaixo do que lá em cima, não é?
Ele só me olhou, puxou um lenço e começou a limpar o rosto já banhado de suor.
Finalmente, solucionado o problema, estamos acomodados dentro do avião, prontos para decolar. Consegui um corredor. No assento do centro, uma senhora toda de preto, com um crucifixo na mão, rezava baixinho. Junto à janela um padre olhava a paisagem, como se estivesse se despedindo. 
Abri minha revista e comecei a ler. Enquanto o avião taxiava para alcançar a pista destinada à decolagem, as comissárias começaram com os procedimentos em casos emergenciais. Indicaram as instruções colocadas atrás dos bancos, recomendaram a leitura. A senhora ao lado se atrapalhou com o crucifixo e começou a ler o manual de cabeça pra baixo. Estava nervosa. Derrubou no chão o manual e soltou um ai. A cada frase que a comissária dizia, ela soltava ais, cada vez mais altos. Quando falaram nas máscaras que, em caso de despressurização, cairiam automaticamente do teto, ela olhou pra cima e perguntou: 
De onde?
E soltou um grito quando o padre explicou. Aí, eu pensei:  Este vôo não agüenta uma turbulência! A aeronave decolou. Após atingir a altura almejada, o aparelho que subia inclinado, ficou na horizontal. Do meu lado veio um?Graças a Deus!
 E o padre:
 Para sempre seja louvado! E fez o sinal da cruz.
Foi quando ela me perguntou:  O senhor viaja sempre?
Respondi que sim. E ela:  Não tem medo, não?
Respondi que sim. Mas não pensava nisso.
Foi quando ela despejou sobre mim uma enxurrada de argumentos para me convencer a repensar minha atitude. Falou que não viajava com a TAM; que preferia a Varig, por ter a melhor manutenção; que a Transbrasil estava quebrada e que só viajava pela Vasp porque estava "dura". E várias histórias sobre desastres aéreos no Brasil, no Japão, na Malásia; era uma enciclopédia aeronáutica a mulher gorda vestida de negro. Nessas alturas, o padre já se animava e sugeria que antes de cada vôo as pessoas deveriam ser benzidas. Formar-se-ia uma corrente positiva nas dependências da aeronave. Parece que Deus não gostou muito da idéia. Tanto que, naquele momento, ouviu-se a voz do comandante que alertava sobre a conveniência de apertar os cintos, já que teríamos uma zona de turbulência à vista.
Mas apertar o que?, disse a senhora; 
Eu já apertei tudo o que podia!
 Só sei que o avião começou a sacolejar. Subia, descia; descia, subia! E a reza comendo solta, agora engrossada pelo padre e por outras pessoas circunvizinhas. O que o padre dizia, ela repetia. E me cutucava para que eu deixasse de ser herege. Como não sou bom de oração, fingi que repetia. Aí, minha cabeça girou. E se o que estou fazendo for considerado uma heresia? De repente, a calmaria. Vencemos a zona de turbulência. Sorrisos e alívios. Lá vêm as comissárias servir o lanche. Neste momento, foi a vez de São Pedro. Tempestade de verão quase perto de Angra. O suco voava, as luzes piscavam e a chuva caía 
Graças a Deus? ecoaram. Estava próxima a cidade maravilhosa. Descida. Aplausos para o pouso perfeito.
Sorrisos dos que chegaram sãos e salvos. E a costumeira pressa para sair do avião.
Aliás, são dois momentos de pressa ? na entrada e na saída! Todos em direção da esteira de bagagens. A senhora de preto e o padre já estavam lá esperando. Peguei um carrinho e fui para o lado oposto a eles. Já dentro do táxi, ao sair, ouvi uma voz. Era o padre se despedindo da senhora de preto:  Glória a Deus nas alturas!
Pensei comigo: "nas alturas e aqui embaixo também!".

Ary Fontoura

Casa de Ferreiro



Casa de ferreiro, espeto de pau!

Nestas minhas andanças pelo Brasil, excursionando com a comédia “Corra, que papai vem aí”, trabalho que está completando mil representações em cinco anos de carreira, ao descer do avião da Vasp, no aeroporto de Aracaju, saudei a noite sergipana com três formidáveis espirros.
Ao chegar no hotel, troquei o ar condicionado pela forte brisa que vinha do mar. E com a janela aberta, fui dormir. Não deu outra! Apanhei a maldita gripe que assola o Brasil. E devo lhes dizer que nunca tive uma gripe tão forte e tão sofisticada. Prova irrefutável que os vírus estão ficando cada vez mais rebeldes, em troca da estupidez do homem, que destrói o seu próprio habitat. Sendo virótica, derruba você de cara! E não adianta ter tomado vacina porque ela não respeita nada. A cabeça começa a pesar, o apetite desaparece, o que faz você ficar mais fraco ainda, e uma vontade de ficar eternamente deitado toma conta do seu corpo. Tudo dói. Do nervo mais tenro ao osso mais forte. E eu tendo que trabalhar, fazer o público rir. Na hora do espetáculo, os deuses do teatro baixam e lá vai você constatar como Deus é pai. 

As forças voltam e, entre um Targifor e outro, a comédia acontece. E o público, parecendo adivinhar a desgraceira que toma conta do comediante, se diverte como nunca! Hoje, faz vinte dias que estou com a Nicéa, nome dado à epidemia gripal, por motivos óbvios. Neste espaço de tempo, tomei de tudo. Desde antibiótico, que arrasou o meu fígado, até vitaminas de A a Z, xaropes, antiinflamatórios que estimularam a minha gastrite, obrigando-me a lançar mão de um genérico chamado Omeprazol, isto quando encontrava nas farmácias. Por ser mais barato, o remédio desaparece e o governo do Fernandinho não faz nada! Isso é outra história, embora esteja ligada à minha doença... O que sei é que, depois de ter tomado tanto remédio, fiquei intoxicado. Cheguei ao Rio e recorri à velha árvore de boldo que insisto em manter no meu jardim, antevendo sempre os pileques que, eventualmente, possam acontecer. 

Dei uma balançada no galho, caíram algumas folhas e o fígado ficou bom. Mas a tosse continua, razão pela qual fui tentar gastar alguma coisa no plano de saúde da Globo, só pra me fazer presente. Quando cheguei à sala do otorrino que escolhi, levei um susto. Uma sinfonia de espirros e tosses formava uma verdadeira orquestra. Pra não contrariar o que estava estabelecido, aos poucos, tossindo, entrei no clima. A secretária, também gripada, claro, com o nariz entupido, me chamou de Adi ao em vez de Ari. Entre um suspiro e outro, me avisou que eu tinha que pagar a consulta porque o médico que eu escolhera não trabalhava com plano de saúde nenhum. Aceitei. Peguei o recibo pra descontar no imposto de renda e me sentei para ser atendido logo após. Quando entrei na sala do médico, o ar condicionado estava desligado e o calor era grande. Estendi a mão para o médico e ele, muito gentilmente, se negou a apertá-la, enquanto colocava sobre o nariz aquela máscara habitual.
- Não aperto sua mão porque estou gripadíssimo!
Ao notar a decepção estampada em meu rosto, perguntou: - E o senhor, o que tem?
- Estou no final da gripe, doutor. Uma tosse que não passa!
- E não vai passar tão cedo! É preciso paciência. Eu já estou gripado há trinta dias. Já tomei de tudo e não adianta nada. E o senhor, o que tomou?
Acabei passando uma receita de um chá que minha avó sempre me dava. Uma mistura de manteiga, mel, alho, limão e aspirina. Ele anotou e perguntou se eram duas ou mais cabeças de alho? E prometeu que ia fazer o chá e tomar antes de dormir.
Saí do consultório com a receita de um outro xarope, o recibo da consulta, tossindo!
Já no elevador, enquanto descia, lembrei-me de outros atendimentos que tive. Certa vez, um cachorro me mordeu a mão e quase me arrancou um dedo. Fui ao Miguel Couto, sendo atendido por um jovem que, logo ao me ver, disse que eu era o seu primeiro cliente. Quando viu a minha mão sangrando, desmaiou. Eu tive que dar éter pra ele cheirar. Outra vez, no consultório dentário. Fui arrancar um dente e meu dentista estava com o rosto em petição de miséria. Um lado estava tão inchado que a boca tinha ido parar na orelha. Lembrei-me também do atendimento que outro médico fazia num ambulatório: engessava a perna de um infeliz, com um braço na tipóia. Ninguém é super-homem. Somos todos iguais na alegria e na dor.
O elevador chegou ao térreo e o Sol queimou meu rosto, antecipando o verão que iremos ter. Se Deus quiser, a epidemia estará longe, exportada para o inverno dos Estados Unidos! E entre uma onda e outra, a grande felicidade de estar com saúde!

Contrações musculares






Viajar é bom. De férias, melhor ainda. Voltar é melhor. Rever a casa, os lugares por nós conhecidos, os amigos, o Brasil, o Rio de janeiro. Ah, por mais que você viaje, vai ser difícil encontrar lugares iguais ao Brasil e ao Rio... E veja, apesar de todos os maus tratos, dos desgovernos, da pobreza, não há povo igual como o brasileiro. Não que lá fora deixem de existir pessoas legais. Existem sim! Mas... o brasileiro é o brasileiro! Nós arrasamos!!! Cheguei a Lisboa, primeira parada, para depois seguir para Londres e, finalmente, antes de voltar, Paris. Em Lisboa, encontrei a hospitalidade tradicional, ligada a uma capital que se moderniza dia a dia, com uma noite maravilhosa e inúmeros lugares para ir. Os portugueses, alegres e hospitaleiros, não deixam por menos e aproveitam essa nova fase pós-mercado comum europeu.

 Saí a passear, acompanhado de amigos e, em especial, de um brasileiro profundamente católico que deve ter feito, segundo meus cálculos, uns trinta sinais da cruz, diante de cada igreja que passávamos e entrávamos. Foi numa delas que começou o meu carma de viagem. Devo confessar que não tenho uma definição religiosa. Sou muito critico com relação a todas elas e só me lembro de Deus quando a coisa está apertando pro meu lado. Mesmo assim, como bom cristão, acompanhei este amigo numa de nossas andanças. Às onze e meia da noite, entramos numa igreja lá pros lados do Chiado. Para quem não conhece, devo dizer que para se chegar lá a pé, como nós fomos, é um estirão, como diria um bom mineiro. Mas tudo bem! Eu, imbuído de religiosidade, dizia para meus pés, com certeza futuramente calejados, que o sacrifício valeria a pena. Portanto, rumo a desbravar a ladeira. Finalmente, a igreja apontou na nossa frente, toda iluminada. Um "graças a Deus chegamos”, imperceptível, para que o colega nem ouvisse, foi balbuciado por mim. Eu estava cansado e fiquei num dos últimos bancos da nave enquanto o meu amigo se aboletava quase junto do altar. Ele queria ver tudo de perto!
Não sei por que, minha cabeça balançou. De sono, talvez! Ai, então, encostei-a na parte alta do banco. Por trás de mim, vinda das trevas, uma beata que tomava conta da igreja, com um crucifixo preto e enorme na mão, uma arma, na verdade, deu um berro junto aos meus ouvidos pra neguinho nenhum botar defeito, dizendo que ali era a casa de Deus e não um albergue. Quando ela gritou, eu me voltei subitamente. Foi quando a porca torceu o rabo... Um torcicolo do bom, que até agora, meses passados, ainda me persegue, se instalou em mim. Com a beata vociferando impropérios, tratei de sair depressa da igreja antes que as outras pessoas que lá estavam se voltassem e me descobrissem, reconhecendo-me, visto que as novelas da Globo passam por lá e eu sou figurinha fácil... Aquela beata histérica só não teve a mãe dela ofendida dentro da própria igreja, porque, nas minhas visões, pareceu-me ter visto o Cristo se despregar da cruz, colocar o dedo sobre os lábios, em sinal de silêncio. Aquele crucifixo em riste, aquela beata berrando, a ressonância do templo, o Cristo pedindo silêncio e a minha saída intempestiva, condenavam-me, para sempre, a não ser um cristão praticante. Mas eu sou useiro e vezeiro em experiências assim. Certa vez, no Maracanã, eu fui ver como era aquela reunião dos adeptos da Igreja Universal do Reino de Deus. Quando o bispo Macedo, do tablado armado no campo, pedia que as pessoas se desfizessem e jogassem para fora o que lhes estava incomodando, parecia que eu era o alvo. O que recebi de óculos em cima de mim dava pra abrir umas três óticas. 

Além de outros objetos tais como calcinhas, sutiãs, cuecas, enfim, tudo o que incomodava aos fiéis. Se os candidatos a crentes são recebidos assim, imagina depois, pensei eu. E imagine, caro leitor, que eu já havia programado uma visita à Testemunhas de Jeová. Estava muito interessado na cerimônia do batismo. Daí, pensei: – Há males que vêm para o bem! Já imaginaram o que poderia me acontecer na hora do batizado? Nu, dentro de algum rio, o que iria sobrar de mim? Hoje, quando faço massagens com o poderoso e eficiente Roberto Samico, ao virar o pescoço para mudar de posição, eu vejo como é melhor continuar acreditando em energia positiva e negativa, metáforas do bem e do mal e seguir em frente. Afinal, pra que mexer em time que está ganhando? Mesmo assim, com o corpo todo torto, achei Lisboa um luxo. E Londres! E Paris, final da viagem, onde, mais torto do que nunca, eu prestei uma homenagem ao legendário corcunda Quasímodo, quando fui à Notre Dame. E fiquei curioso em saber se a corcunda era de nascença ou se foi alguma beata que lhe tacou um crucifixo. Nenhum francês quis me explicar. Ou porque não sabiam ou porque o humor deles é péssimo!

Casa de ferreiro, espeto de pau!



Casa de ferreiro, espeto de pau!

Nestas minhas andanças pelo Brasil, excursionando com a comédia “Corra, que papai vem aí”, trabalho que está completando mil representações em cinco anos de carreira, ao descer do avião da Vasp, no aeroporto de Aracaju, saudei a noite sergipana com três formidáveis espirros.
Ao chegar no hotel, troquei o ar condicionado pela forte brisa que vinha do mar. E com a janela aberta, fui dormir. Não deu outra! Apanhei a maldita gripe que assola o Brasil. E devo lhes dizer que nunca tive uma gripe tão forte e tão sofisticada. Prova irrefutável que os vírus estão ficando cada vez mais rebeldes, em troca da estupidez do homem, que destrói o seu próprio habitat. Sendo virótica, derruba você de cara! E não adianta ter tomado vacina porque ela não respeita nada. A cabeça começa a pesar, o apetite desaparece, o que faz você ficar mais fraco ainda, e uma vontade de ficar eternamente deitado toma conta do seu corpo. Tudo dói. Do nervo mais tenro ao osso mais forte. E eu tendo que trabalhar, fazer o público rir. Na hora do espetáculo, os deuses do teatro baixam e lá vai você constatar como Deus é pai. As forças voltam e, entre um Targifor e outro, a comédia acontece.

 E o público, parecendo adivinhar a desgraceira que toma conta do comediante, se diverte como nunca! Hoje, faz vinte dias que estou com a Nicéa, nome dado à epidemia gripal, por motivos óbvios. Neste espaço de tempo, tomei de tudo. Desde antibiótico, que arrasou o meu fígado, até vitaminas de A a Z, xaropes, antiinflamatórios que estimularam a minha gastrite, obrigando-me a lançar mão de um genérico chamado Omeprazol, isto quando encontrava nas farmácias. Por ser mais barato, o remédio desaparece e o governo do Fernandinho não faz nada! Isso é outra história, embora esteja ligada à minha doença... O que sei é que, depois de ter tomado tanto remédio, fiquei intoxicado. Cheguei ao Rio e recorri à velha árvore de boldo que insisto em manter no meu jardim, antevendo sempre os pileques que, eventualmente, possam acontecer. Dei uma balançada no galho, caíram algumas folhas e o fígado ficou bom. Mas a tosse continua, razão pela qual fui tentar gastar alguma coisa no plano de saúde da Globo, só pra me fazer presente. 

Quando cheguei à sala do otorrino que escolhi, levei um susto. Uma sinfonia de espirros e tosses formava uma verdadeira orquestra. Pra não contrariar o que estava estabelecido, aos poucos, tossindo, entrei no clima. A secretária, também gripada, claro, com o nariz entupido, me chamou de Adi ao em vez de Ari. Entre um suspiro e outro, me avisou que eu tinha que pagar a consulta porque o médico que eu escolhera não trabalhava com plano de saúde nenhum. Aceitei. Peguei o recibo pra descontar no imposto de renda e me sentei para ser atendido logo após. Quando entrei na sala do médico, o ar condicionado estava desligado e o calor era grande. Estendi a mão para o médico e ele, muito gentilmente, se negou a apertá-la, enquanto colocava sobre o nariz aquela máscara habitual.
 
 - Não aperto sua mão porque estou gripadíssimo!
Ao notar a decepção estampada em meu rosto, perguntou: - E o senhor, o que tem?
- Estou no final da gripe, doutor. Uma tosse que não passa!
- E não vai passar tão cedo! É preciso paciência. Eu já estou gripado há trinta dias. Já tomei de tudo e não adianta nada. E o senhor, o que tomou?
Acabei passando uma receita de um chá que minha avó sempre me dava. Uma mistura de manteiga, mel, alho, limão e aspirina. Ele anotou e perguntou se eram duas ou mais cabeças de alho? E prometeu que ia fazer o chá e tomar antes de dormir.

Saí do consultório com a receita de um outro xarope, o recibo da consulta, tossindo!
Já no elevador, enquanto descia, lembrei-me de outros atendimentos que tive. Certa vez, um cachorro me mordeu a mão e quase me arrancou um dedo. Fui ao Miguel Couto, sendo atendido por um jovem que, logo ao me ver, disse que eu era o seu primeiro cliente. Quando viu a minha mão sangrando, desmaiou. Eu tive que dar éter pra ele cheirar. Outra vez, no consultório dentário. Fui arrancar um dente e meu dentista estava com o rosto em petição de miséria. Um lado estava tão inchado que a boca tinha ido parar na orelha. Lembrei-me também do atendimento que outro médico fazia num ambulatório: engessava a perna de um infeliz, com um braço na tipóia. Ninguém é super-homem. Somos todos iguais na alegria e na dor.
O elevador chegou ao térreo e o Sol queimou meu rosto, antecipando o verão que iremos ter. Se Deus quiser, a epidemia estará longe, exportada para o inverno dos Estados Unidos! E entre uma onda e outra, a grande felicidade de estar com saúde!

O efeito Capitu





Quando Laços de Família começou, Adalberto achou-a uma novela inofensiva, chegando a indicar, numa de suas idas ao Motel Holiday com Izaurete, sua namorada há longos dez anos, que ela a assistisse. Só que, a partir do momento em que Izaurete começou a acompanhar a novela, algo mudou no seu comportamento, passando a ter umas reações nada habituais. Isso Adalberto constatou quando ela faltou pela primeira vez ao encontro semanal que mantinham, sempre às terças-feiras.
O perfil do Adalberto era simples: aposentado, ganhando pouco, solteiro, dividia as despesas e morava com sua irmã, também aposentada e viúva de um general, no apartamento dela no complexo do Riocentro. A despesa maior de Adalberto era às terças-feiras, quando levava Izaurete para jantar no La Mole, onde dividiam o prato e o couvert e depois iam ao motel fazer amor.

Izaurete nada pedia, pois sabia da situação do seu namorado. Do lado dela, nada podia fazer sendo simples funcionária da Prefeitura da Barra, onde ganhava uma mixaria. Contentava-se com os presentes que recebia no dia de seu aniversário, no Natal, Ano Novo, na data em que se conheceram (Adalberto tinha obsessão por uma colônia do Boticário e em todos as ocasiões lhe dava a mesma coisa).

Era terça-feira, ele já estava sentado esperando, seu Technos à prova d´água marcava mais de oito horas e o celular de Izaurete só dava “fora de área”.
Foi até o orelhão e ligou pra casa. Sua irmã atendeu. Nada de notícias! Pagou a conta e foi embora. Quando chegou, sua irmã estava assistindo “Os Maias”. Estava na apresentação do capítulo. Quando ele leu “Os Maias” na telinha, levou o maior susto. Pensou que o Cesar tinha sido clonado. Sua irmã estava tão fissurada no Walmor Chagas que nem o viu entrar e logo se dirigir à secretária eletrônica. Nenhuma mensagem! Pegou uma latinha de Brahma na geladeira, sentou-se no sofá e, enquanto via TV, perdia-se em seus pensamentos. Onde estaria Izaurete?
A madrugada foi péssima para ele. Nada de conciliar o sono. Rodou na cama mais que o CD Roberto Carlos onde a música que os dois haviam escolhido estava gravada: “Porque eu rolo na cama... você é mais que um problema... é uma loucura qualquer...” – e por aí afora! Sem dúvida, era um pesadelo musical!
Manhã do dia seguinte: Izaurete chegou, como todos os funcionários, atrasada... Sua seção tratava de IPTUs dos inadimplentes. A maioria, com justa razão, pertencia aos moradores do Recreio, só lembrados durante as campanhas políticas e depois esquecidos (A Praia da Macumba e a estrada do Rio Morto se constituem na maior realidade de como se governa mal e um prato cheio para os turistas que buscam as últimas praias limpas do Rio!). Bom, isto é assunto para mais de dez anos, no mínimo. Voltemos à Izaurete! Olhou a agenda. Ligar para o Dudu, apelido do Eduardo Paes, para os mais íntimos. E ela havia sido apresentada pela melhor relações-públicas daqui do Pontal, que é a Lu, do Gepetto. Depois da apresentação, ser cabo eleitoral do Cesar Maia foi “pinto” (Para os que não conhecem a expressão, pinto no caso quer dizer “fácil”!).
Ligou para o Dudu e ouviu que o aumento do funcionalismo da Prefeitura, tão prometido e aguardado, tinha sido suspenso. Compressão de despesas. Ao ouvir isso só não xingou o Eduardo porque achava ele bonitinho, mas a mãe do Cesar e a Maria Zilda Bethlem, mãe do Rodrigo, coitadas! E ficou mais p. da vida quando Odete, sua colega da escrivaninha ao lado, mascando chicletes, mostrou-lhe a manchete do Globo, denunciando o nepotismo! Cesar negara o aumento aos seus funcionários, mas nomeara sua esposa, seu filho, sua mãe, sua avó, sua bisavó, seu bisavô e até mesmo um “primo”, coleguinha dos seus tempos de seminário. Todos em cargos de confiança. E ela ganhando 480 reais por mês! Aí ela ficou fula (pra não repetir o p.) da vida. Começou a xingar todo o sistema. Nem o mulato (FHC) escapou! Ia jogar no chão o mata-borrão (raridade de 1930) que adornava sua escrivaninha, quando o telefone tocou. Com o mata-borrão no alto da mão direita, atendeu ao telefone com a esquerda. Claro que era Adalberto, que ouviu, num tom jamais utilizado por ela, a frase a seguir: - “É com você mesmo que eu quero falar!".

Depois do telefonema, não trabalhou mais. Não tinha clima. Foi direto pra cantina, onde havia marcado o encontro com Adalberto. Chegou lá, estava com sede, pediu um guaraná pra beber. Logo se lembrou do prefeitinho homônimo e suspendeu, trocando por uma caipirinha que o dono da cantina servia por baixo dos panos. Quando Adalberto chegou, ela já estava na terceira dose. Seus olhos estavam tão vermelhos que parecia ter fumado uns cinco baseados. Viu o seu amado e repetiu: – É com você que eu quero falar! E começou o desabafo: que estava cansada de tudo, de dar pra ele de graça, com o emprego, com as promessas não cumpridas. Que iria abandonar tudo e fazer michê. Se fizesse um por dia ia ganhar uns quinze mil por mês. Era só cobrar quinhentinho. Deu uma geral nela mesma e abaixou o preço: “Cinqüenta reais já dá mais que meu salário mensal”. Agora, se ele quisesse exclusividade, que bancasse os quinze mil sozinho. Adalberto ficou mais pasmo do que estava. Izaurete continuou, dizendo que ia fazer um regime com a Dra. Tereza Morelli, dar adeus às pizzas do Gepetto e botar um anúncio no Tipo Carioca: “Pantera gaúcha! Faz qualquer programa! Corpinho de parar o trânsito! Trilegal! Aceita todos os cartões!” Instalara-se nela, definitivamente, o efeito Capitu!!!

Adalberto chegou bêbado em casa, arrasado. Tomou um litro de chá de boldo que a sua prestimosa irmã preparara. Na outra semana, coincidência ou não, ao ver o Jornal Nacional e ouvir do William Bonner a notícia de que o juiz Siro Darlan proibira as crianças de participarem da novela das oito, ficou de pé no meio da sala, deu um berro tão forte que o lustre tremeu, o prato caiu das mãos da irmã – que comia e se engasgou, ao mesmo tempo em que os “bobs” de sua cabeça balançavam.
Mais tarde, o pacato Riocentro foi sacudido por um tremendo foguetório. Os moradores logo pensaram que era o aviso de que o pó tinha chegado na Rocinha. Alguém aventurou um palpite: "Pelo tamanho do estrondo, o Rock in Rio só vai dar doidão!".
Nada disso! Era Adalberto que, da sua janela, comemorava a proibição, na TV, do filho da Capitu.
Alguns meses depois, Adalberto, que não era de ferro, paquerava na fila do ônibus em frente ao BarraShopping, quando à sua frente parou um Uno Mille vermelho, novinho em folha. Na direção Izaurete, vestida de pantera, com botas altíssimas, maquilagem exagerada, uma pinta preta na face esquerda, cabeleira caju, fazia sinais para ele entrar. Pensando que era um travesti, Adalberto relutou, a princípio. Quando viu que era Izaurete, aceitou a carona que ela lhe oferecia. Naquela noite, pra matar saudades, ela deu pra ele três vezes seguidas. E não cobrou nada!!!