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Acento no futuro


Como metade da humanidade, também sou grande admirador do gênio criativo de Oscar Niemeyer. Por circunstâncias que simplesmente não existiram até hoje, não tive o privilégio de conhecer o mestre. Em certa ocasião, cheguei a comentar isso com Roberto DAvila, que é amigo dele, e ele ficou de oportunamente promover esse encontro, desde que eu fosse um dos entrevistados do seu programa. Concordei  e considero aquela entrevista, que já rolou há meses, a melhor que tive oportunidade de dar  mas quanto ao mestre: só aparece na minha vida por via indireta.

Em dezembro passado, o Dudu (Eduardo Santos)  que em 2000 produziu um dos clipes mais trabalhosos da Valéria (Pró-video), quando ela teve de posar mais de 60 horas para ser pintada nas cores do festival de Parintins (azul e vermelho) até chegar ao prata do novo milênio  chamou-me com certa insistência para comparecer ao lançamento do livro sobre o mestre, no MAM, projeto do qual ele participou. Chegando lá, percebi um esquema de grande porte, mas o Dudu não estava. Subi as escadarias e fui apreciando a exposição.

 Daí a pouco a grande dama da nossa dramaturgia  Fernanda Montenegro  abre oficialmente o evento, comentando o sucesso da exposição, dias antes, em São Paulo, e passa a palavra ao Ronald Munk, um dos chief executives da ACCENTURE. Foi então que fiquei sabendo que se trata de empresa de consultoria global (atuando em 44 países, com 400 mil especialistas espalhados pelo mundo) com 4000 funcionários no Brasil... contando, entre seus clientes, com dezenas dos maiores expoentes em cada segmento da economia.

De repente, volta à minha mente uma foto que tirei um ano antes no Santos Dumont, quando estava esperando embarcar para uma palestra em Vitória, à frente de um back-light que ilustrava a chegada de uma onda e a seguinte inscrição na areia: Eu sou sua idéia, mas não duro para sempre...

Se, um ano atrás, ao visitar o site da Accenture, não percebi nenhuma afinidade, de repente percebi como o TimeDimension tinha tudo a ver com esta empresa.
O Ronald encerra seu speech e vem diretamente na minha direção. 

De origem Húngara, tendo estudado em Viena, focado no futuro, estabeleceu-se imediatamente uma tremenda sinergia ao falarmos da beleza, da imagem do século 21 que dei ao tempo com TimeDimension. De agenda cheia, marcamos almoço para dentro de 2 dias, mas quando cheguei ao escritório, dia seguinte, queria almoçar no mesmo dia. E assim foi.

Vamos ver se com Acento no Futuro, o TimeDimension ganha um parceiro na dimensão certa.

Nilton Nunes: Homenagem a um mineiro do Recreio



Quando cheguei à Globo, há 30 anos, o Nilton já tinha 10 anos de casa. Agora, após 40 anos de dedicação, ele está nos deixando para fazer somente o que lhe der na telha, lá no Recreio. Isso não quer dizer que deixaremos de nos ver com freqüência, porque nossa amizade, nossa afinidade vão continuar. Minha dívida para com o Nilton é tamanha, que não sei o que teria sido de mim, sem ele.

O meu irmão Harald um ano mais velho  era o sujeito calmo, equilibrado entre nós dois lá na Áustria, quando éramos crianças  e eu mais irrequieto, afoito. Com a bola, ele era um Beckenbauer e eu um Gilmar no gol (era leve e voava...). Ele foi estudar engenharia e eu virei esquiador profissional, enquanto estudava design. Ou vice-versa.
Como vocês podem imaginar, chegando aqui com 27 anos, sem experiência internacional alguma, muito menos saber português, o ritmo carioca das coisas (ou a falta dele) me levava facilmente à beira de ataques. Aqueles cenários de aberturas que estavam superatrasados e com data de estréia marcada... (e vontade de jogar tudo pro alto, quebrar uma cadeira contra a parede...). Chegava o Nilton: Calma Hans, tudo vai dar certo. Era meu irmão, um pouco mais maduro, serenando a situação.

Ora, no campo profissional: assim como nunca escondi que a Sylvia  minha ex-mulher, eterna amiga íntima e colaboradora, que desenhou todas aquelas roupas incríveis para as aberturas do Fantástico e as pinturas para a Valeria é a mulher número 1 entre as artistas gráficas, da mesma forma afirmo que o Nilton é um entre cinco dos maiores gênios da videografia no mundo.

Quantos trabalhos não fizemos juntos a toque de caixa. A foto ao lado como que simboliza o nosso amor fraterno, duas cabeças que, às vezes em uma noite, geravam um sucesso a quatro mãos que entrava nas mentes, nos corações, nas emoções de milhões. 

As realizações que tivemos oportunidade de saborear juntos, aqui, em Portugal (SIC) e em Roma (TV Monte Carlo), nunca serão esquecidas.

Pois é, Nilton, meu anjo da guarda, meu irmão: sem ti, muita coisa não teria saído tão perfeita. Muito obrigado por tudo e que Deus te abençoe.

Hans Donner

Iluminado por Cristo e protegido pela pátria




Há vinte e cinco anos, logo que cheguei ao Brasil, fui contemplado com a grande amizade. Eric O. Sigrist, um suíço radicado no Brasil e sócio numa empresa de confecção de moedas comemorativas – A Ouro Preto Collections –, apostando no meu talento e colocando em jogo a sua posição, designou-me para desenvolver o visual da empresa. Naqueles tempos difíceis, os três mil dólares recebidos foram equivalentes a uma fortuna. Só que o sócio dele, um americano, não quis aceitar. Achava dinheiro demais para investir em design. Eric insistiu: "Oferecemos às pessoas um artigo caro, diferenciado, e precisamos ter uma identidade bem cuidada, também diferenciada, quando formos vender o produto. Ou você aceita, ou saio da sociedade".  Eric me acolheu nos momentos mais difíceis da minha vida; foi um dos que me estenderam a mão. 

 Este mesmo homem trouxe, há tempos atrás, um relógio Longine para que a empresa que desenvolve o meu relógio na Europa fizesse alguns reparos. Um objeto clássico, antigo, uma relíquia, que tinha, por acaso, a posição de marcação de hora, minuto e segundo na mesma posição do relógio que eu havia projetado para a minha coleção, o Time Dimension (um relógio diferente de qualquer outro, que marca as horas através de discos, em vez de ponteiros). Quando descobri isso, foi literalmente um momento mágico!

Logo em seguida, fui convidado a criar um comercial que é veiculado no mundo inteiro, através da Fashion TV, numa campanha em que o visual de um relógio de ponteiros se transforma no Time Dimension, onde o passado dá lugar ao futuro.
Após a comemoração do lançamento da campanha com Eric, num bar vizinho ao prédio da Globo, saí para apanhar o carro no estacionamento da empresa, quando me dei conta que ele estava indo no sentido contrário ao de sua casa. Percebi que ele fazia questão de me acompanhar. No momento em que chamei a sua atenção para o fato, olhei para o alto e tive uma surpresa! Vi de um lado uma palmeira, do outro um pinheiro e o Cristo no meio. 

Essa é a história da minha vida – O Deus que me manda tantas coisas boas, o pinheiro simbolizando a minha pátria – a Áustria –, e o Brasil, representado por uma palmeira. Um cenário inacreditável: a estátua do Cristo Redentor no meio da Áustria e do Brasil.  Esta situação tão especial estava presente em minha vida e eu nunca havia percebido. Talvez eu caminhasse por esta mesma rua por mais uns cem anos, sem conseguir perceber este maravilhoso detalhe. 

Chegando no meu apartamento, na Lagoa, refletindo sobre os acontecimentos do dia, fui para o terraço e olhei para os lados. Neste momento, percebi ao meu redor a mesma combinação. São seis pares de pinheiros e palmeiras me rodeando, formando um círculo protetor. Será que é uma coincidência? Eu acho espetacular!
Tudo isso que acontece comigo é tão incrível que tenho receio de contar para as pessoas. Nos meus momentos de reflexão, questiono: Como Deus ainda pode se preocupar com tantos detalhes? Como é maravilhoso ser prestigiado com tanta energia e sensibilidade para perceber tudo isso. É realmente incrível!

TIME DIMENSION EM PALAVRAS

TIME DIMENSION EM PALAVRAS

Com a chegada de José Gabriel, meros 14 meses após o nascimento de João Henrique, virei babá do primogênito e não tem nada que eu poderia estar adorando mais na vida do que sair cedo de manhã por algumas horas com o meu filho. Todo dia alternamos nosso roteiro, pois opções não faltam neste pedaço de terra abençoada pelo Cristo Redentor. Se a comunicatividade do carioca já é proverbial, entre pais e mães com suas crianças é simplesmente fenomenal a facilidade e o calor humano com que se estabelecem conversas. Foi o que se deu, outro dia, na Lagoa. Estávamos naquela  pai-cerca-filho-escapa, e observando as peripécias de um menino da idade do meu, que se chama João Victor, resolvi me aproximar do seu pai, porque vejo muitas babás e mães passeando com seus bebês, mas raramente um pai. Apresentei-me como Hans para puxar um papinho e o Sidney espontaneamente falou meu sobrenome e lembrou que nos tínhamos cruzado na porta do Mistura Fina, quando nossas respectivas mulheres estavam cada qual luzindo sua barriga-bola e que os dois eram meninos e iriam nascer no mês de janeiro e que os dois iriam se chamar João...
No rolar da conversa, descubro que ele escreve sobre meio ambiente e a natureza, para revistas relacionadas à ecologia. Daí, meu pensamento pular do meu filho João Henrique para o meu filhote de design favorito, foi um instante. Para melhor descrever o prosseguimento dessa carioquice,  passo a reproduzir parte do e-mail que ele me mandou, com cópia para os seus amigos na internet, no dia do nosso encontro:
O interessante nesta história é que o Hans Donner, entusiasta da sua profissão, começou a falar sobre seu projeto que irá revolucionar a forma que utilizamos para acompanhar a passagem do tempo. Fitando-me com seus olhos azuis, disse:  Guarde este momento, ele marcará um divisor de águas na história. Acesse o site: wwww.timedimension.net  que você verá um relógio que mostra o verdadeiro design do tempo, na forma que Deus criou. Fiz o download sem pestanejar e constatei que realmente o Donner é um design incrível.
Bom, em comemoração ao meu aniversário estarei partindo para uma linda praia que fica numa área ecológica – Trindade – e dormir com a lua e acordar com o sol, sem interferências urbanas. Coincidência ou não, será uma boa oportunidade para sacar  intimamente esse design do tempo”.  
Isso foi há um mês, 8 de abril, véspera do aniversário do Sidney. Depois que respondi, leia o que ele mandou:
”Olá Hans, legal você ter respondido.
Já por volta das três horas do dia 9, sexta-feira santa, eu estava instalado na paradisíaca Praia do Cachadaço em Trindade, preparando-me para descalçar por 4 dias as interferências urbanas, TV, poluição, jornal, multidão, relógio... confirmo que consegui  me desligar de quase tudo, inclusive dos ponteiros e dos números. Só não consegui me desligar do relógio, ou melhor, do Time Dimension que, ao contrário dos relógios convencionais que nos mantêm fixados na matéria, liberta o pensamento para além das nuvens.
Sinceramente, filosofar sobre como enxergamos a passagem do tempo foi um presente naquele momento: em resumo, o mesmo mistério que separa a água da terra, os pés do chão, a fumaça do vento e a alma do corpo, separa também o homem de Deus; no entanto, há algo em comum em todos estes fenômenos, a TENUIDADE, a qual você sacou como resplendor. Sidnei Vargas”.
Valeu, Sidney: você conseguiu descrever com as palavras mais profundas o visual do Time Dimension, meu filhote mais querido de design. Obrigado!

A SÍNTESE DA ALEGRIA




Num recente domingo do tipo “Rio 40º”, resolvemos alterar nossa rotina e fomos saborear um gostoso breakfast no Marina Palace, de onde se pode apreciar toda aquela movimentação no “Venice” do Leblon (o calçadão + pista reservada para pedestres, joggers, patinadores, skatistas e crianças com seus triciclos, carros elétricos etc.), fora o show no céu de brigadeiro: ultraleves, parapentes e outras engenhocas voadoras; enfim, uma perfeita manhã de domingo carioca...
Terminado o café da manhã, descemos e, enquanto a Valeria ficou nos observando à sombra (ela, mais o José Gabriel de oito meses (na barriga), eu e João Henrique (1 ano) cruzamos a rua para sentir de perto essa movimentação e para um primeiro contato, aquela primeira sensação com a areia de praia. Claro que ele ficou deslumbrado com tudo aquilo. Quando a Valerinha, do outro lado da avenida, começou a dar sinais de ansiedade, vendo seu pimpolho no meio dessa confusão, resolvemos voltar. Foi aí que passamos na frente de um daqueles caminhões de gelo que abastecem os quiosques e barraqueiros, parado na pista do lado de dentro. O que me chamou a atenção foi a fisionomia do motorista, um sujeito com a cor do Brasil, um Muhammad Ali, mais para quando ainda usava o nome de Cassius Clay, todo suado e, quando a Valeria veio se aproximando ele arreganhou um sorriso de propaganda de pasta de dente e exclamou: “Vamos sentir sua falta na Avenida de novo este ano”. Ao perceber nossa chegada – a minha com o João Henrique – ele continuou: “A melhor coisa que tem na vida!”  e eu retruquei “Com certeza, a melhor coisa da vida...” e ele prosseguiu, com aquele sorriso contagiante: “Eu também tenho filhos, inclusive um casal de gêmeos, já com 16 anos, mas tenho mais quatro filhos. Seis no total. Todo mundo na praia, e eu aqui, neste caminhão, feliz por estar carregando gelo num domingo, porque quando chego em casa, encontro minha família e sei por quê suei o dia todo”.
Achei isso uma filosofia de vida, uma lição de quão simples pode ser a felicidade. Só no Brasil...
Lastimei não estar com a câmera para tirar uma foto deste incrível brasileiro para apresentá-lo a vocês.

O REDI FOI EMBORA




Horas antes de morrer, o Redi esteve comigo na Globo, sentado na cadeira que tenho para visitas e o papo com esta doçura de homem foi de tal forma abrangente que, desde que se foi, estou convencido de que ele tinha vindo para se despedir. Depois explico.
Fora o ano em que ele trabalhou conosco, diretamente aqui no Rio, mantivemos a relação de trabalho (à distância) e de amizade durante os 25 anos em que ele esteve morando em Nova York. Todos esses anos ele me visitou, sempre expondo seu dilema, se deveria voltar pra cá ou ficar lá, e, todas as vezes, eu ponderava as vantagens do Rio e a segurança financeira que seu reconhecimento profissional nos maiores periódicos dos EUA representava.
Ele estava mais magro, falando deste tremendo inverno em Nova York, que afetava o comportamento das pessoas, obrigando-as a ficar em casa e de só sair à rua por motivos de extrema necessidade,  ainda assim sem deixar qualquer parte do corpo exposta à intempérie. Isso com 35º positivos do lado de fora, nessa quinta-feira recente, 12/02. Ele esteve me contando como dessa vez tinha vindo para ficar, para poder estar perto e cuidar da mãe – uma senhora com 93 anos e um humor fantástico –, junto com o seu irmão Luiz. E notei que ao me referir à palavra “operação” (em relação a um amigo), ele se curvou com uma exclamação de dor, como se estivesse recebendo um soco no estômago. Ao comentar isso com o irmão, dois dias depois, numa ocasião muito triste para todos nós, fiquei sabendo de que, um ano atrás, havia sido diagnosticada uma condição cardíaca e que tudo tinha sido arranjado para uma intervenção preventiva, relativamente leve, mas que, devido a essa aversão, não foi realizada. O que é incrível, entretanto, é que o filho do Luiz – herdeiro da enorme sensibilidade e do talento do tio –,  ao ouvir falar de cirurgia, desmaia.
Agora o Redi, na véspera de ir embora – lamentavelmente, de vez – trouxe um daqueles lagartos com várias peças de encaixe do M.C. Escher, como presente para o João Henrique (meu filho de 1 ano), comprado no MOMA de N.York. Mas – e aí a situação ficou intrigante – também me deu uma luva com chocalho para o nosso segundo filho, José Gabriel, que ainda está por nascer! Pelo menos enquanto estou relatando esses fatos.
Quais seriam os motivos para ele antecipar um presente para o José Gabriel, morando na Gávea – a menos de 2km da Globo – no mesmo apartamento em que morou enquanto trabalhava conosco há dois anos? Nunca saberemos ao certo, mas com certeza ele é a figura masculina mais sensível que conheci – requisito número um para quem tem o dom de sentir e pressentir as coisas...
A sensibilidade dele não admitia sequer matar uma formiguinha, daquelas miudinhas que aparecem pela parede da cozinha no verão. Ele veio nos consultar, alvoroçado e acabou fazendo uma trilha de açúcar para fora do apartamento. Isso era o Redi. O Redi que mostrava as nossas cores, o nosso Brasil, a nossa alegria de vida para os americanos e, recentemente, pediu uma pequena intervenção minha para que a Globo Internacional  fizesse uma matéria sobre uma exposição dos seus trabalhos em Nova York. Mas nada aconteceu, até o dia de sua morte. Aí virou notícia no Jornal Nacional, falou-se sobre D. Flor e seus dois maridos etc.
Um gênio como o Redi, que não matava uma formiguinha sequer, certamente está no céu. Eu o imagino com a grande dúvida se volta ou não volta para nos dar mais alegrias com as suas caricaturas, onde as figuras se parecem com ele.

GLOBELEZA VIRTUAL




Quando a Valeria me disse, há uns seis meses, que estava esperando o nosso segundo filho – o José Gabriel –, uma das minhas primeiras reações, sabendo que ela havia renovado o contrato com a Globo uma semana antes, foi: E a vinheta da Globeleza? Depois de apresentá-la grávida no carnaval 2003, ficou claro que para 2004 tinha de ser criado outro conceito. Mas eu estava num impasse sério: como reviver a Valeria com aquela silhueta que todos conhecem. A inspiração veio na mesma madrugada: pulei da cama às 3h30min, com as imagens nítidas na cabeça e corri para o terraço para agradecer ao Cristo Redentor por esta idéia: produzir a Valeria virtual.  Por intermédio do craque de minha equipe, o Pit, conheci a produtora Seagulls Fly, do Rio, seu diretor Flavio Mac, o Chavo, e seu diretor de animação, o Fernando Reule, gênios absolutos. (Confira em seagullsfly.art.br, onde você também pode ver o making of dessa vinheta revolucionária).

Foi também o Pit que descobriu o estúdio House of Move, de Los Angeles, que detém o know-how para digitalizar o movimento do corpo da Valeria, onde já se captou também a dança de Michael Jackson e cenas para o filme Titanic.

E, quando surgiu o convite para a Valeria ser tema do carnaval de Los Angeles (vide: Tipo Carioca de outubro 2003), o projeto tornou-se viável, já que poderíamos combinar o útil ao agradável.
É uma tecnologia bastante complexa. Foram 45 pontos luminosos no corpo da Valeria – todo coberto por uma roupa de mergulhadora de neopreno preto –, gravando sua coreografia com 24 câmeras colocadas ao seu redor. Mas isso seria a parte mais fácil. Transformar esse esqueleto virtual dançante resultante dessa sessão em um corpo oco de aço polido, até virar o inconfundível corpo da Valéria sambando, foi uma tarefa que exigiu mais de sessenta dias, com 12 horas de dedicação integral, em média. Entraram fotos de outros carnavais, a modelagem em 3D através da deformação de polígonos (Studio Max), o sistema Motion Capture para recriar os movimentos da Valeria, seguido de iluminação e texturização, e a pintura de circuitos integrados, idealizados pela Sylvia Trenker, responsável por todas as pinturas da Globeleza, desde o começo. Fora recursos como High Dynamic Range (na reprodução de reflexos metálicos), renderizados com um software chamado “BRAZIL” (mais uma dessas coincidências incríveis da minha vida) e programas de pós-produção (Combustion e After Effects). Em suma: uma selva de recursos.  Mas valeu o esforço. São 40 segundos impactantes, e somente no último instante verifica-se que tudo foi gerado por computador: o rosto. Primeiro porque acredito que não há tecnologia que possa reproduzir a expressão de radiante alegria da Valéria, e segundo porque sem esse detalhe poder-se-ia duvidar de que seja a Valeria virtual. 
Conseguimos imortalizar aquela silhueta e a dança, que desde o começo da década de 90 vem encantando mais de cem milhões de brasileiros a cada ano. Uma “escultura” contemporânea, um registro perene de sua (Glo)beleza e chamada para a maior festa do mundo.    

Molecada do Brasil

 Dedico minha coluna deste mês às crianças carentes do Brasil e a uma pessoa muito especial que conheci quando estive em Recife, no mês passado, para o lançamento do Calendário de 2001 da Valeria com fotos do Otto Weisser, da Editora Escala.

Essa pessoa especial chama-se Marron Brasileiro, poeta e verdadeiro cidadão, que tem “brasileiro” no nome e que muito se preocupa com o social. Foi ele quem me contou, no final da festa, uma história surpreendente de um menino de rua, desses que ficam nos sinais de trânsito vendendo bala e lavando pára-brisas.

Parando num sinal, um menino se aproximou do carro e perguntou ao Marron Brasileiro:

 – Por que todo mundo que passa por aqui me olha como se eu fosse de vidro?

Marron ficou perplexo, sem resposta. Logo percebeu a seriedade da pergunta, mas nada disse. Foi quando o menino mesmo continuou:

 – Mas, tio, não se preocupa não, que o meu super-herói é de plástico.

Nem Marron Brasileiro nem eu tínhamos ouvido algo parecido de um menino de rua. Em seguida, ele cantou uma música provocada por esse fato, cuja letra reproduzo abaixo e que me emocionou muito.

Molecada do Brasil

                                                                                              Marron Brasileiro

Toda rua pra esse mundo vai mostrar

um olhar dizendo: “Não me esqueça”

uma mão pedindo muito mais que pão

temerosa que algo aconteça

com seu coração de menino

menino, não desapareça.

Não dá pra crer

que a molecada do Brasil não tenha o que comer

sem ter onde morar,                                                                    REFRÃO

onde estudar, não há como crescer

e a molecada do Brasil sem nada pra comer               BIS

e a gente aqui parado vendo tudo isso acontecer.

Todo verde representa a esperança

esperança pros meninos é vermelho

vive no sinal fechado e morre logo

é triste ver alguém com medo olhando pelo espelho

abortando um princípio de justiça que há em nós,

em nós um coração pede conselho

e antes que esse conselho nos apareça

o nosso medo mata toda ação

no outro sinal vermelho.

REFRÃO

(“RAP”)

Mais que nunca é preciso alertar

a nossa consciência num desejo de mudar

dizendo pro coração minha tarefa é ajudar

por mais que existam pessoas que viram a cara, que digam: “Não”.

Um desejo de mudança é um passo pra uma solução

antes que a omissão se transforme em violência

e nos venha em cobrança na porta do nosso lar.

CORO

A molecada tá querendo comer

a molecada tá querendo estudar

a molecada tá querendo somente

o seu direito de crescer e ser gente

a molecada tá querendo aprender

ver no Brasil dignidade urgente

a molecada tá querendo somente

o seu direito de crescer

e ser gente.

Pensei: quem sabe juntando a linguagem dele com a minha, através de um videoclipe, nós conseguiremos “tocar” mais pessoas neste “Ano Internacional do Voluntário”?!


Um convite maravilhoso, quase uma intimação.





Um belo dia, durante um almoço com André Dias, um dos diretores da Globo.com, fui convidado  para conhecer Barretos e seu famoso espetáculo. A princípio, adorei a idéia, mas ao, mesmo tempo, imaginei: – Acho que eles estão me convidando para terem a presença da Globeleza, mas, enfim, eu sempre tive muita vontade de conhecer essa festa e talvez seja este o momento.


Ao chegar em casa, no mesmo dia, contei para a Valéria o que havia acontecido e ela concordou comigo, mas ainda assim, vendo a minha empolgação, decidiu me acompanhar.
Logo ao chegar, fomos muitos bem recebidos. Senti-me muito à vontade, pois simplesmente adoro todas estas festas; eu estava literalmente em casa – lá pude sentir toda a alegria e vibração do Brasil.


A maioria dos brasileiros já ouviu falar de Barretos, uma bela cidade no interior de São Paulo, onde acontece o segundo maior rodeio do mundo.  Um festival bem mais conhecido que Parintins (um espetáculo maravilhoso que acontece no meio da selva amazônica e que, na minha opinião, merecia uma melhor divulgação). Ao me deparar com aquela arena fantástica, projetada por Oscar Niemeyer, comecei a entender toda aquela emoção. Imagine! São cerca de 50 mil pessoas transmitindo uma energia incrível.


Assim que os dirigentes perceberam a minha empolgação, começaram a fazer uma retrospectiva da história do evento, citando importantes artistas que já haviam participado da produção visual, entre eles, o meu grande amigo David Zingg, Tomie Otake e tantos outros.


Tomado por tamanha empolgação, não resisti e fui ver todo aquele movimento mais de perto. Desci bem próximo ao lugar onde os touros e cavalos disparam para a arena e pude sentir toda a força daqueles animais e, é claro, daqueles homens, ou melhor, daqueles super-homens.


Depois de assistir os toureiros em Sevilha; ver de perto uma corrida de Fórmula-1; os mais loucos esquiadores descendo montanhas a quase 200 quilômetros por hora; GP de moto velocidade categoria  500 cilindradas, e a maioria dos esportes radicais, pude perceber que, para mim, aqueles homens tornaram-se os mais corajosos do mundo.
Ao retornar para o camarote, completamente tomado de emoção, fui pego de surpresa.
De repente, em meio aquele burburinho, no auge da competição, todas as câmeras ligadas; escutei o meu nome. Pensei! O que está acontecendo?  Quando me dei conta, a minha imagem estava no telão com a apresentação do locutor oficial do rodeio, anunciando que eu seria o artista responsável pelo visual do evento de 2001.
Eram cerca de 50 mil pessoas vibrando ao ouvir meu nome ecoar nos alto-falantes; não tive como recusar. Foi a intimação mais maravilhosa que eu já recebi.
Por um instante, pude ver que naquela festa faltava alguma coisa. A imagem de eventos deste tipo esta sempre vinculada aos Estados Unidos, à Austrália, ao Canadá; faltava “um toque de Brasil”. Então, mais uma vez, a coincidência de terem me chamado, o porquê deste convite tão especial.


Todos sabem do meu forte envolvimento com o Brasil e foi, a partir daí, que Barretos ganhou as cores do Brasil.
No dia seguinte, ao voltar de ponte aérea, já estava estampado, na primeira página de um dos principais jornais de São Paulo, o anúncio da minha nova tarefa.
Foi realmente incrível. Nascia ali mais um visual da década em que o Brasil tomou conta do meu design. Teve o voluntariado, a comemoração dos 500 anos do Brasil, a Amazonas Filarmônica e tantos outros.
Participar do segundo maior rodeio do mundo, e dando a ele a cara do Brasil, era tudo o que eu queria naquele momento.



INCRÍVEL SEMELHANÇA





Dois anos atrás, a Revista de Bordo da Lufthansa dedicou uma série de páginas ao meu universo de design e a como o Brasil virou meu paraíso de realização profissional e de viver. Não economizaram esforços nem custos e escolheram um dos mais requisitados fotógrafos de portrait de Dallas, Texas, James Mc Goon, que já fotografou, entre outros, Bill Clinton para a capa da revista americana Forbes. Em dois dias James Mc Goon me “perseguiu” de casa para a Globo e escolheu vários pontos lindos do Rio. Não podia faltar um enquadramento, bem ao estilo dele, ao pé do Cristo, já que a maioria dos estrangeiros que sabem pouco sobre o Brasil pensam que o Cristo fica em cima do Pão de Açúcar. Esta foto foi escolhida para abrir a matéria em página dupla. Como vocês sabem, nos vôos o tempo não passa e a maioria dos passageiros pelo menos dá uma olhadinha nas revistas. Os comentários sobre esta matéria vieram via telefone, cartas, fax e e-mails.
Depois do trabalho relâmpago comigo aqui no Rio, James me mandou, via
e-mail, uma história que ele passou no avião, a caminho de Milão, quando seguia para o próximo trabalho. Dois estudantes de comunicação, ao lado dele, puxaram conversa e, descobrindo que ele tinha me fotografado, disseram que eu era muito famoso no Brasil. Timidamente, tentaram descobrir se ele tinha também encontrado e conhecido a Valeria. Ao ouvirem a confirmação, James escutou: “Ela é m-u-u-u-u-u-u-u-u-u-u-u-u-u-u-u-u-i-t-o mais famosa”. Num tom de brincadeira, James disse: “Não fique triste”. Eu tinha adorado!!!
Esta semana, um amigo que trabalhou no Jornalismo da Globo, anos atrás, o Sabá, apareceu com alguns projetos. Por acaso ele os trazia protegidos num folheto que tinha uma foto do Cristo na capa, num ângulo inusitado. Antes de ele iniciar a conversa, pedi desculpa, levantei da minha mesa, da qual eu vejo o Cristo (que há 25 anos manda idéias lá do Corcovado para mim), peguei da estante a Revista da Lufthansa e coloquei lado a lado, como vocês estão vendo aqui na minha coluna neste jornal... “tipo carioca”.

É de TÁXI que eu vou




A ano 2000 fechou para mim com chave de ouro e cheio de surpresas. Uma delas foi a reedição do meu livro – “Hans Donner e seu Universo” –, lançado em 1997 e esgotado logo nos primeiros meses. Foram várias tentativas de reedição, com versões mais baratas para estudantes, mas nada se concretizava. Toda vez que alguém me perguntava onde podia comprar o meu livro, doía dizer que ele estava esgotado.
12/12/00 – Estava eu, surpreendentemente, a caminho do aeroporto para o relançamento do livro em São Paulo, agora pela Editora Escala, com o patrocínio de nada mais que a tradicional grife de cristais Swarovski, entre outros. São mais de 20 mil exemplares que estarão sendo distribuídos no mercado.
Quando já estava no balcão de embarque, vi um cara correndo para me entregar um molho de chaves. O meu molho de chaves, que eu havia esquecido no banco do táxi. Agradeci a atenção do motorista.
Na capital paulista, o coquetel de lançamento do livro foi ótimo. Da Globo, só estiveram presentes dois grandes amigos – Valdir Cimino e Mario Rubial. E o lindo buquê de flores da Marluce.
No dia seguinte, Valéria e eu fomos ao Hospital dos Aidéticos para participar da Festa de Natal que o Valdir Cimino organiza lá todo ano. É realmente chocante ver o estado em que as crianças e os adolescentes portadores do vírus da AIDS vivem. Conversei com uma prostituta aidética, e me emocionei muito. De repente, começou a chover forte, a chover granizo, uma chuva que durou as duas horas em que fiquei no hospital. Todas as crianças se amontoaram em cima de um pequeno palco, coberto por uma lona, aonde nós também fugimos das águas que iam se acumulando com a tempestade. Para tirar as crianças doentes de lá foi preciso transportá-las em uma ambulância. Qualquer chuvinha poderia levá-las à morte, pois com o vírus da AIDS ficam sem defesa alguma, sem nenhuma imunidade, propensas a pegar qualquer doença. Um cenário muito triste, seres humanos que precisam realmente de um pouco de carinho. Era para isso que estávamos lá.

O trânsito em São Paulo geralmente já é um desastre; imagina em dia de chuva torrencial... Levamos uma hora e meia para chegarmos ao hotel em que o Otto Weisser – amigo pessoal e um dos melhores fotógrafos de nu feminino do mundo – estava hospedado, para analisar as provas gráficas de um calendário da Valéria para 2001. No táxi, mais uma vez, o motorista “puxou papo” comigo e disse que conhecia tudo da minha vida, que o filho dele estava nascendo no momento em que o desfile da escola de samba Mocidade Alegre, em minha homenagem, estava acontecendo, em 1997. 

Ele me disse que era metalúrgico e que acompanhava muito da minha vida. De uma hora para outra, começou a me dizer coisas lindas, mensagens muito bonitas... Eu estava com cinco exemplares do livro no carro e resolvi presentear alguém que conhecia tudo da minha vida. Enquanto escrevia a dedicatória para ele, José Juliotti, o motorista-metalúrgico, um ser humano fantástico, tirou um cartãozinho do bolso, escreveu umas palavras e disse: “Você não é tão bonito, mas entrega esse cartão para a Valéria”. No cartão, ele havia escrito: “Valéria. Tudo na vida é simples comparado com a sua beleza”. Estava criado o 12o título para acompanhar a foto do 12o mês do calendário da Valéria. Eram 11 pessoas conhecidas do país inteiro que já tinham escrito frases sobre a Valéria para os 11 meses anteriores. O meu mais recente amigo – o motorista de táxi de São Paulo – será o representante do povo no calendário, um sentimento que Valéria e eu tivemos e que se realizou, resultado de mais uma coincidência na minha vida.

Na manhã seguinte, de volta ao Rio, mais uma surpresa: o motorista do táxi que peguei para vir à Globo era o mesmo que tinha me levado e devolvido o molho de chaves. Quantos anos uma pessoa poderia ir e voltar para São Paulo e não encontrar o mesmo taxista!!!