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VIDA CIGANA - Por Paulo Sergio Valle - outubro 2013



Eu gosto de viajar. Mas, viajar o que é? Um encontro ou uma fuga?
Alguns viajam em busca de si mesmos; outros, para escapar dos problemas.
Lembro-me que, muito jovem, eu gostava de botar uma mochila nas costas e sair por aí. Buscando realidades, talvez... Buscando sonhos, certamente.
Dormia em qualquer lugar, qualquer albergue me servia. Amizades de circunstância pareciam-me eternas. Idiomas desconhecidos eram transformados em expressões e gestos. Compreensão total.

O BARBEIRO


“Escrever é muito perigoso. É preciso tomar muito cuidado com o que se escreve”.
Meu leitor talvez pense que a frase acima foi dita por um jornalista político, temeroso das consequências de suas análises, quem sabe até de um processo por calúnia ou difamação.
Indo mais longe, o leitor talvez imagine que foi pronunciada por um escritor, arrependido das inconfidências cometidas em seus livros.
Poderia também ser de um economista metido a fazer previsões sobre as finanças de um país, quase sempre contrariadas pela realidade.

EXISTÊNCIA


Quando a conheci, ela era católica praticante. Ia à missa todos os domingos, confessava-se e comungava. Depois, afastou-se da igreja católica, tornou-se evangélica – o que não durou muito –, passou a frequentar centros espíritas e a estudar a filosofia budista. Abandonou tudo.
Loura, olhos castanhos, corpo bem feito, a moça parecia ter se desinteressado da própria beleza. Vestia roupas sóbrias e amarrava os cabelos displicentemente, com uma fita na nuca.

IMPACIÊNCIA




Em um dos meus recentes artigos, escrevi aqui neste cantinho que a sociedade brasileira deveria se rebelar com os desmandos, corrupção e insensibilidade por parte dos nossos políticos.
Lembro-me que, em seu fecho, conclamei o cidadão a sair de sua quietude e a protestar, dizendo uma palavrinha... Ou um palavrão!

Será que eu estava adivinhando o que pouco depois aconteceria?
Óbvio que não, pois fui pego de surpresa como todos em nosso país.
Mas que os sinais de “impaciência social” estavam claros, ah... isso, estavam.
E tal impaciência se revelava sobretudo nas opiniões dos leitores em nossos periódicos.
Aliás, dizia um jornalista americano (acho que foi Art Buchwald, mas não estou certo) que a parte mais importante dos jornais é a que publica a opinião dos leitores.
Ali sim, sem rebuscamento, sem compromissos com partidos políticos, sem submissões ao poder econômico, é que se lê o que as pessoas realmente pensam.
Confesso ser nessas opiniões que muitas vezes me inspiro para também fazer meus protestos, orais ou escritos...

E assim como constatei a enorme insatisfação das pessoas com a política “nacional”, aquela que tem origem em Brasília, vejo crescer a insatisfação com a maneira como são administradas nossas cidades.
Sobre este assunto, tendo como foco o Rio de Janeiro, escrevi também aqui que não se pode desfigurar uma cidade, destruindo casas, desalojando moradores, transformando tudo em bairros de passagem para atender às exigências do Comitê Olímpico.
E tudo isso para realizar eventos esportivos que não duram nem um mês.
Que maravilha seria se o tal comitê exigisse que toda essa dinheirama fosse investida em hospitais e escolas.
Meus amigos, perdoem-me se lhes causo uma decepção, mas os europeus estão quebrados, cheios de problemas, sem apoio popular para realizar grandes eventos.
Por isso enfiaram-nos goela abaixo esses Jogos Olímpicos.
E nós, ingenuamente (?) caímos na armadilha.
Pelo menos é o que eu penso, mas, se o leitor não concordar, pode me dizer uma palavrinha.
Ou um palavrão!

Paulo Sérgio Valle

OS VINHOS

Pra quem gosta de bons vinhos, a região de Bordeaux, no sul da França, é o paraíso.
E eu gosto, mas como gosto de pedalar também, aceitei  o convite de minha mulher, e percorremos boa parte das vinícolas de bicicleta.

Foram seis dias, aproximadamente trezentos quilômetros, provando alguns dos melhores vinhos do mundo. Depois de uma rápida estada na própria cidade de Bordeaux, partimos para Dordogne, passando por belíssimos castelos, em cujos solos são cultivadas as uvas e produzidos os vinhos.
Em seguida, fomos para a cidade medieval de St Emilion, cujo nome é familiar aos apreciadores da bebida.

O que você diria?


O que você diria de um país em que as decisões da Justiça não são cumpridas?
O que você acha de um país cujo Congresso tem a ousadia de querer mudar a Constituição ao seu alvedrio, só para proteger delinquentes?
O que você acha de um país em que um insignificante parlamentar põe-se a ofender um ministro da Suprema Corte?
O que você acha de um país cuja Câmara de Deputados dá posse a um cidadão acusado e condenado pelo Supremo Tribunal Federal?


CLUBE CEU





Há cerca de trinta anos, o jornalista Armando Nogueira, dando asas à sua paixão pela aviação, criou o Clube Esportivo de Ultraleve (CEU), próximo do Aeroporto de Jacarepaguá e do Clube da Aeronáutica.

No inicio, operavam no “sítio de voo”, aquelas engenhocas construídas com tubos e panos, cujos voos não ultrapassavam os limites da Barra e do Recreio dos Bandeirantes. Com o tempo, a coisa foi se sofisticando, e apareceram equipamentos semelhantes aos aviões monomotores que permitiam viagens por todo o país.

Eu mesmo fiz um voo até o Rio São Francisco, lá para o lado de Paulo Afonso, enfrentando, em alguns trechos, chuva e turbulência. Um companheiro meu ousou voar até Fernando de Noronha. Claro que esses modernos ultraleves exigiam, para manter sua confiabilidade, boas oficinas e mecânicos competentes. E a consequência foi a instalação no CEU de três oficinas que empregaram muita gente. Outros empregos foram criados para manobrar as aeronaves nos hangares, bem como para controladores de voo.

Escolas de pilotagem surgiram e, recentemente, até para helicópteros. O clube foi reconhecido em todo o meio aeronáutico como um exemplo a ser seguido. E o que faz a prefeitura agora? Simplesmente, por causa dos Jogos Olímpicos, que não duram mais do que um mês, expulsa o clube de sua área sem lhe oferecer outro lugar compatível para se instalar. 

Fazem o mesmo que fizeram com o Autódromo. E para onde irão as mais de cem aeronaves sediadas no clube? O Aeroporto de Jacarepaguá está saturado, não há lugar para mais nada. E não há outro lugar nas cercanias.  E por acaso a prefeitura se preocupa com isso? Claro que não. Quer que todos saiam a toque de caixa, para que ela, depois dos Jogos, negocie a cobiçada área com a construção civil.  

E, com essa e outras atitudes semelhantes, a Barra e o Recreio vão se desfigurando. Perdendo suas reservas e seus logradouros. O poder público passa como um rolo compressor sobre as conquistas e propriedades dos cidadãos.

São os “tempos modernos”, em que só o dinheiro conta.

Paulo Sergio Valle

A RENÚNCIA




Na última vez que estive em Roma, e não faz muito tempo, mas foi bem antes da anunciada renúncia do Papa, ouvi muitos comentários sobre os problemas do Vaticano. Até mesmo na embaixada do Brasil, onde trabalha um amigo meu, adido militar, havia rumores sobre a incompetência dos auxiliares do Sumo Pontífice. Problemas de toda a ordem, sobretudo morais e financeiros. 

Curioso que sou, comprei um livro (Sua Santità) que expunha os mais secretos papéis de Benedetto XVI. Este livro deu o que falar na Itália, pois parece que foi o próprio secretario particular do Papa que passou (ou vendeu?) as informações sigilosas ao escritor e jornalista Gianluigi Nuzzi. Lendo este livro, conclui-se que é muito difícil ser ao mesmo tempo chefe de estado e líder espiritual. Se é demais para um jovem, imaginem como deve ser para um homem em provecta idade.

Fechei o livro e fui caminhar pela cidade do Vaticano. A pequena cidade estava repleta de turistas e religiosos, como sempre. Detive-me olhando, disfarçadamente, os rostos dos padres e freiras que ali estavam. Pensei na decepção daquela gente, que dedicou a vida a seu Deus e à Igreja Romana, com os escândalos provocados por seus superiores eclesiásticos.

Imagine a desilusão dessas pessoas, que fizeram votos de castidade e pobreza, com a vida promíscua e amoral de certos cardeais e bispos. Eu, que acredito em Deus, mas não sou católico, lamentei e lamento a dissolução moral de uma instituição que deveria ser exemplar para toda a humanidade. Mas, felizmente, não são todos. A maioria dos padres vive uma vida digna e de acordo com seus votos. Uma curiosidade: de acordo com o Código de Direito Canônico, que tenho em minha casa, é possível, por razões elevadíssimas, a renúncia de um Papa. Mas é coisa raríssima.
Penso no sofrimento de Ratzinger ao renunciar ao trono papal.

RESPONSABILIDADE

Nenhum cidadão pode estar acima da Constituição do seu país.
Basta que haja um, ainda que um só, e a ordem pública vai pro brejo. A isso se chama “tecido social”, e quem costura esse tecido é a Justiça.
Goste-se ou não, decisão de juiz é para ser cumprida.
Vejo, com preocupação, certos pronunciamentos de políticos, sobretudo no Legislativo, questionando acórdãos e sentenças da Suprema Corte.
Aonde querem chegar? Não vêem que com isso estão a propor a desobediência civil?
Temos em nossa História alguns exemplos de desrespeito à Constituição Federal, tais como a ditadura de Getulio Vargas e o autoritarismo militar, e sabemos aonde isso pode chegar.
Acabam-se as garantias individuais, o respeito aos contratos, e promove-se o caos.
Já fomos chamados pelo mundo civilizado de “republiqueta das bananas”, e não queremos isso de novo. 

Sofremos e lutamos muito para que esses males acabassem.
Vejo também com preocupação esse negócio de controle social da mídia.
Pergunto a você, leitor inteligente: se a imprensa não fosse livre, teríamos a denúncia do mensalão? Claro que não!

Ficaria tudo camuflado, o dito pelo não dito, e o crime dos mensaleiros considerado apenas “um malfeito”.
Quando muito diriam que tudo não passara do malfadado caixa dois, coisa “normal” no país, e poriam a culpa no Marcos Valério. Não descartariam nem mesmo a possibilidade de o José Dirceu candidatar-se à sucessão da presidente Dilma.
Mas, felizmente, nossas instituições mostraram-se fortes e, sobretudo, a Suprema Corte afirmou sua independência (embora seus ministros sejam escolhidos pela Presidência da República).

A figura do juiz Joaquim Barbosa, julgando destemidamente, há de ficar na memória coletiva.
Aventureiros e responsáveis, populistas e demagogos, hão de aprender que no Brasil existem leis que estão acima de nossas vontades individuais.

Aberrações como o Chavismo e Kirchneirismo hão de ficar sempre fora de nossas fronteiras.
Se Deus quiser, amém.

SICILIA

Fizemos uma excelente viagem de bicicleta pela Sicilia, sul da Itália. Durante cinco dias, quase todo o tempo subindo e descendo, pedalamos cerca de quinhentos quilômetros.
Começamos em Siracusa, pequena cidade de praia, onde comemos deliciosos peixes fritos no azeite, acompanhados dos vinhos da região siciliana, os famosos Nero D’avola.
Depois, passamos para Ragusa, entre vales e em estradas de terra, que são sempre as preferidas dos ciclistas de mountain bike.

Infelizmente, embora a turma fosse experiente, uma moça derrapou, em uma curva descendente, e machucou-se com alguma seriedade, o que a impediu de prosseguir a viagem.
Após uma árdua subida, iniciamos uma longa descida que nos levou a Modica, que se caracteriza por sua arquitetura barroca. Chegamos cansados e famintos e, literalmente, devoramos o jantar oferecido.

No dia seguinte, partimos para Agrigento, na minha opinião a mais bela cidade do caminho. Parece incrível, mas aqui ainda estão de pé, e em relativo bom estado, templos gregos. Encontramos muitos arqueólogos entregues a estudos da região. Aliás, a Sicília, em épocas remotas, já foi invadida por gregos, fenícios e árabes, que deixaram profundas marcas em sua cultura. 

Em seguida, pedalamos para Mazara, onde mais se percebe a influência árabe. É como se fosse uma viagem no tempo, pois nessa região ainda se encontram vestígios da Idade Média.
Dormimos no Kempinski Giardino di Costanza, onde recebemos a noticia que a ciclista que sofrera uma queda havia fissurado a bacia, mas estava se recuperando.
No dia seguinte, seguimos para Palermo, onde terminou a nossa pedalada.
Como bem observou minha mulher, que conhece a Itália como poucos, a Sicilia é a parte mais pobre da Itália, sobretudo com a crise europeia, mas é uma das mais ricas culturalmente. Por isso mesmo, é decepcionante saber que regiões mais ricas da Itália, como a Lombardia, querem se separar do sul da “Bota”. Seria uma pena, porque a Itália perderia a metade de sua beleza.
Você há de perguntar: e a máfia ainda existe? Existe, mas não vimos nada. 

Paulo Sérgio Valle

Tour



DEBATES

Pela segunda vez, este ano, estive em Belém do Pará. Fui convidado para a Feira Pan-Amazônica do Livro. Além de relançar no norte meu livro “O Homem que Venceu Getulio Vargas”, fiz uma longa palestra sobre minhas atividades como compositor e escritor.

Em primeiro lugar, quero registrar que aquela feira literária primou pela organização, superando mesmo as bienais de São Paulo e do Rio de Janeiro. Em segundo, que o interesse das pessoas pelo trabalho dos artistas é inigualável. Foi o que constatei quando, ao término de minha palestra, coloquei-me à disposição do público para perguntas e críticas.
Claro que logo vieram as perguntas sobre a carreira musical, sobre as motivações para compor e os prováveis caminhos da MPB. Mas os melhores momentos decorreram das questões sobre o direito do escritor de reescrever a História segundo sua própria visão. 

Lembro-me que um historiador fez algumas críticas ao meu livro, dizendo que faltou uma certa fidelidade aos fatos. No entanto, no curso dos debates, constatei que havia um fundo ideológico nas idéias do historiador. 

Na verdade, quem queria mudar a História era ele, e não eu. Felizmente, em meu apoio, veio um escritor paraense, José Maria Abreu, que afirmou que em nenhum momento adulterei a História, apenas dei movimento e dinâmica aos personagens, para fugir à rigidez das obras biográficas. 

E foi exatamente essa a minha preocupação ao contar o embate no Pará entre os seguidores de Getúlio e os do governador Eurico Valle, na Revolução de 1930.
De qualquer forma, fica uma certeza: política é uma coisa complicada. A gente escreve sobre acontecimentos antigos, pensa que já se extinguiram, e, de repente, é tudo trazido para o presente, como se nada houvesse mudado.
Como num passe de mágica, alguém transforma Getúlio em Lula, vê reacionarismo na oposição ao populismo e quer fazer da literatura um mero escrito panfletário.
Com toda sinceridade, se literatura fosse apenas isso, eu não escreveria nada. Seria melhor o silêncio.